27 de abr de 2015

#HistóriaComSabor: Esperança à moda síria

Quando eu pensei em criar o projeto "História com sabor" sabia em qual panela estava botando minha colher. Um sabor pode mudar vidas inspirando, trazendo lembranças boas ou saudades infinitas. Mesmo assim, alguns amigos toparam o desafio de prepararem receitas que marcaram suas vidas. Muitos com um brilho no olhar, outros apreensivos. Não é fácil recriar os gostos que a vida nos fez provar.

Para abrir as portas deste nosso bistot virtual, eu escolhi uma história que me enche de afeto e de esperança. Por isso, peço a todos que escolham suas mesas, já pensem no que preferem beber e bom apetite!


                                                   



Talal Al-Tinawi e Ghazal Baranbo estavam atrás de um balcão vendendo seus pratos sírios quando os conheci. Naquele momento, eu decidi deixar meu crachá do Sesc na bolsa e ser apenas Nathalia. Era um evento organizado pela ADUS, um instituto que trabalha pela reintegração de refugiados no Brasil e, como estou me dedicando a esta missão, quis o universo que eles fossem os primeiros refugiados que eu conhecesse. E que sorte a minha.

O casal havia virado a noite preparando os quitutes, os sucos que fizeram questão que fossem naturais, os doces com sabor de casa. E lá fui eu, me deliciar com a minha escolha de um mix sírio. Como boa apreciadora do sabor mundial, posso lhe garantir uma coisa: aquele prato era especial. Você pode pensar que eu esteja exagerando, mas lhe digo que é perfeitamente possível sentir afeto em uma comida. E foi o que aconteceu.

Não sei a receita secreta e, pra falar a verdade desmistificando temperos, o segredo de algo que você prova e percebe que é especial não se compra. Este ingrediente secreto é oferecido. Deve ser por isso que na cultura síria comemos com as mãos, detalhe este que pra mim faz toda a diferença. Provei o kibe mais sequinho e harmonioso que a mim já foi oferecido. Naquele momento, realizei que ali, naquela explosão de sabor, tinha uma bonita história. E Talal me contou dias depois.




Eu fui até a casa da família que fica no Brás e  recebida pela linda Yara, garota de 10 anos, filha do casal. No momento em que Talal nos deixou para fazer suas orações, a pequena síria quis me mostrar seu caderno. E num daqueles instantes em que a poesia bate à porta, ela disse que queria ler pra mim algo que tinha escrito em português. Quando começou com "O que é, o que é?", pensei que estivéssemos em um jogo, mas ilusão a minha. "Viver e não ter a vergonha de ser feliz!!!!!!", eu a interrompi. E expliquei que era uma música de Gonzaguinha . E a menina pediu para que eu cantasse. Enquanto o pai rezava, entoávamos um canto pela vida comendo chocolates.

Quando Talal voltou, nosso show tinha terminado e dele só haviam ficado sorrisos. E foi neste espírito que o segundo sabor marcante da nossa história chegou. Um café árabe preparado com tanto cuidado significava que eles já tinham aprendido como receber amigos aqui no Brasil. O meu, sem açúcar, veio para compor o cardápio que me aguardava. Quando pedi para que ele me contasse sua história, o sírio foi buscar um papel com ela descrita. Já tinha adiantado esta parte para todos os meios de comunicação e estudantes que o entrevistavam. Mas esta não era uma entrevista, era nossa conversa. Quis a vida que ele não encontrasse nenhuma cópia. E eu celebrei, pois contei que queria uma história orgânica, com temperos, café, gente. Queria palavras soletradas de verdade. E ele, generosamente, me entregou este sabor. 

Talal voltava de uma viagem ao Líbano quando foi interceptado por oficiais na Síria. Perguntaram apenas o seu primeiro nome e esta foi a chave que o levou para prisão, pois o confundiram com um opositor homônimo de Bashar Al-Assad. Talal foi preso injustamente e não haviam meios de desfazer o mal entendido. Quinze dias na cadeia secular, aquela onde aprisionam praticantes de pequenos furtos, ladrões de pouca importância. Depois, ele seria levado para a "prisão especial". Na Síria, este tipo de cadeia é o fim de qualquer estrada.

Quando soube de seu destino, Talal chamou Ghazal para conversar. Ele pediu para que ela o esquecesse, pois quem ali entrava jamais voltaria. "Esquece Talal!", esta frase ainda ecoa na minha cabeça, assim como ficou marcado o gesto que ele fez quando me contou esta parte. Eu coloquei meu café sobre a mesa e, indignada, me ajeitei na cadeira e perguntei como ele pôde dizer isso a ela. Sorrindo, me disse "O que você gostaria que eu dissesse a ela, Nathalia?". Me senti envergonhada, o que sei eu sobre este tipo de partida além do estrago que ela deva fazer na gente?

O tempo passava e Talal contava seus segundos vitoriosos porque até ali havia vencido a morte. Quando as portas se abriam, ele se preparava para partir. Viu muita gente morrer enquanto não era escolhido por ela. Ainda não consigo, por mais que ele tivesse tentado me explicar, o que é viver esperando pela morte. Naquele momento, olhei pra ele e perguntei sobre sua fé. E a cereja deste bolo oriental se fez presente: "Eu não estaria aqui sem ela."

O "Aqui" de Talal  é o Brasil. Em sua visão, se Deus permitiu esta jornada de confusões foi para torná-lo melhor. Três meses se passaram, Dezessete horas olhando para uma parede numa solitária, amigos sendo mortos, mas ele não deixava de estar pronto para o seu destino, seja ele qual fosse. E foi então que a porta que se abriu não foi a da morte, mas a da liberdade. Ele voltou e isso é um milagre. Naquele momento, começou a se organizar e pedir refúgio no Brasil, depois de alguns meses passados no Líbano. Teve de deixar sua terra, as memórias de guerra, a prisão, só não deixou lá sua esperança. Esta ele fez questão de trazer no coração. O engenheiro mecânico hoje ajuda Ghazal a preparar o gosto da Esperança Síria sob encomenda, enquanto aguarda sua licença para trabalhar em sua área no nosso país.

Enquanto isso, compartilho com vocês a infinidade de quitutes e uma receita que  vai além de ingredientes culinários. Se você quiser provar o sabor desta história, este é o caminho:

Talal Comida síria





Aos meus amigos Talal e Ghazal que me acolheram com tanto afeto e me acarinharam em sabores.
E em especial à minha pequena Yara, a melhor companhia para se cantar Gonzaguinha comendo chocolates.




22 de abr de 2015

Vingadores: A Era de Ultron


Semana passada eu e o Enzo fomos conferir o novo filme dos Vingadores - que estreia amanhã no Brasil - numa seção fechada para imprensa e formadores de opinião. Abaixo você confere um resumo sobre a história do filme e uma resenha.

Resumo do filme: 

O filme é a sequência de Os Vingadores, onde a equipe de super-heróis dos sonhos volta para proteger o mundo de uma terrível ameaça que tem início quando Tony Stark tenta reiniciar um programa em busca da paz, porém as coisas não dão muito certo e os heróis mais poderosos da Terra, incluindo Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Hulk, Viúva Negra e Gavião Arqueiro, terão que passar no teste definitivo para salvar o planeta. Quando Ultron aparece, a equipe precisa se reunir novamente para deter o terrível vilão tecnológico que quer a extinção da humanidade. No caminho, eles terão que enfrentar dois novatos misteriosos e poderosos, Wanda Maximoff e Pietro Maximoff, e também um velho amigo em uma nova forma, chamado Visão. 





Resenha:

O ponto de junção de um imenso e perigoso universo.


Há alguns anos a gente sabe que não vai se decepcionar quando a vinheta da Marvel aparece na tela do cinema. Em Vingadores: A Era de Ultron, não foi diferente.


O filme já começa com uma cena de ação pesadíssima, cheia de explosões, piadas, e, Hulk quebrando tudo (vejam em 3D). Também apresenta sem cerimônia grandes elementos da trama que serão desenvolvidos no decorrer do filme.


Dessa vez, o Homem de Ferro tem papel importante mas já não rouba tanto a cena nem carrega o filme nas costas, como no primeiro. O que é muito bom: é um filme sobre o grupo e sua união. Sobre briga de egos, sobre prioridades, sobre quem é quem dentro e fora dos Vingadores. Também aborda uma questão importante que está permeando todo Universo Marvel: os inimigos na terra já foram vencidos, mas o que vem do espaço pode ser uma grande ameaça.


A S.H.I.E.L.D. já não é mais a toda poderosa que fornece todo suporte que precisam, e eles precisam se virar com isso e tomar suas próprias decisões. Além disso, a trama do Ultron em si já dá muitos nós na cabeça e vai quebrando expectativas no desenrolar da história: dessa vez, o vilão é complexo e poderoso.


Novamente, a Marvel modifica as origens de personagens secundários, mas nada muito drástico. Fica tudo bem encaixado e amarrado. O filme é bom, com cenas de ação maravilhosas, aquele humor quebra-gelo em diversas situações, mas senti falta de algum grande e estrondoso acontecimento para abalar todo universo cinematográfico da Casa das ideias. Ele cumpre seu papel de amarrar as pontas, mas fica a sensação de que algo maior ainda está por vir (e sabemos que virá). Sensação potencializada pela cena pós-créditos.


Agora, é aguardar pelos tantos lançamentos que vão dar continuidade a essa trama maior e ver como o Homem-Formiga vai se relacionar com tudo isso. Estamos ansiosos!

Confira imagens de cenas do filme Vingadores: a era de Ultron:


10 de abr de 2015

As aventuras de uma judia e uma italiana na cozinha da Coréia

Leia o texto com esta trilha sonora

Você vai comer tudo isso?

Naquele momento olhei profundamente nos olhos dele e pensei "este homem não é pra mim.". Depois do jantar, fui embora e nunca mais nos vimos.

Escolho meus amores e meus amigos pelo sabor que eles tem. Já fiz amigos comendo coxinhas, já me encantei por alguém enquanto tomava um vinho caro. Descobri que amava durante aquela pizza de fim de domingo. Gente que tem sabor é outra coisa.

Conheci Michele em um curso no Centro da Cultura Judaica. Depois da aula no Bom Retiro, o pessoal decidiu voltar para suas casas e nós resolvemos comer. Aquele dia falamos da gastronomia do Oriente Médio enquanto almoçávamos num restô brasileiro, comíamos a sobremesa numa deli judaica e saíamos em busca de ingredientes coreanos. Naquele momento, soube que seríamos grandes amigas. E de grandes amizades nascem os convites ciladas.




Bom, pelo menos isso foi o que eu pensei quando ela me convidou para degustarmos os sabores da Coréia no Seok Joung. Sim, já fui pra China e quando cheguei lá, cadê o Yakissoba e o Rolinho Primavera? Mas beleza, nunca fui de dizer não a um novo sabor. E qual foi minha surpresa além de sermos as únicas não-coreanas do lugar? Aquele almoço foi sensacional.

Sim, estávamos um pouco confusas sobre os temperos do prato, mas formos muito bem recepcionadas e a atendente teve uma paciência gloriosa. Por fim, optamos pelo combinado coreano que é  composto por uma infinidade de pratos como sopa, arroz com gergelim, carnes variadas e legumes no vapor com um aroma e um tempero muito agradáveis ao paladar. Mas a cereja do bolo, digo a coroação da Coréia, veio até mim com o churrasco coreano.





Gente, quem nunca provou um churrasco coreano de mignon na pedra com cobertura de shimeji não sabe o que significa um carinho gastronômico. Este foi um dos grandes pratos que comi na minha história, quiçá na vida.




O que eu realmente gostaria de dizer é que tudo na vida tem um sabor. seja o amargo diante da indignação de um cara que não sabe que mulher de verdade se cuida, mas é boa de papo e prato, seja o da descoberta de temperos coreanos, seja aquele em que você mistura três culturas diferentes, bate no liquidificador e transforma num dia memorável.

E você, qual seu sabor?

Seok Joung
Rua Correia de Melo, 135 - Bom Retiro
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